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Presença Libanesa em Orizânia

Em Divino e na Vila de Santo Antônio do Arrozal, pertencente à Orizânia, foi forte a presença de imigrantes libaneses. A maioria dos sírio-libaneses desconhecia o Brasil até a visita de D. Pedro II ao Oriente Médio no ano de 1876. D. Pedro II aprendera o idioma árabe com o barão Gustavo Schreiner, representante da Áustria no Rio de Janeiro e foi visitar o Oriente Médio. Quando chegou ao porto de Beirute em um navio de bandeira brasileira, jornais e revistas fizeram vários artigos sobre o Brasil, até então desconhecido naquela região.
A região onde hoje se situa o Líbano e a Síria compunha o Império Turco Otomano, que ali se estabelecera desde a Tomada de Constantinopla em 1453. Até a chega de D. Pedro II a Beirute os libaneses pensavam que a América eram apenas os Estados Unidos, diz o brasileiro Roberto Khatlab, pesquisador do setor de imigração libanesa da Universidade de Notre Dame, em Beirute, e autor do livro Mahjar - Saga Libanesa no Brasil.
Os libaneses começaram a chegar ao Brasil, sobretudo nos portos do Rio de Janeiro e São Paulo, a partir de 1880 visando substituir a mão-de-obra escrava diante do processo de abolição. Eram na sua maioria cristãos da região norte do Líbano. Embora estivessem fugindo da opressão otomana, num momento de lutas de libertação que marcaram o fim daquele império, eram por aqui chamados de turcos, porque usavam passaporte otomano.
Um grande número de imigrantes libaneses se instalou em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas igualmente nas cidades mineiras de Teófilo Otoni e no Vale do Carangola na cidade de Divino e na Vila de Santo Antônio do Arrozal. Antônio de Souza Costa escreveu que “Santo Antônio do Arrozal, que tinha também o nome de Choro, quando eu estudava lá, tinha seis casas comerciais, de fazendas (panos, tecidos) e armarinhos, duas padarias, duas farmácias, quatro casas de bebidas e miudezas, ferraria, barbearia. Eram muitos turcos que comerciavam, negociavam até com toucinho em canoa.” [17]
A Gazeta de Carangola[18] na edição comemorativa do centenário da cidade, em 1982, transcreve matéria datada de 1901 que registrou acontecimento, em Divino, denominado Revolução dos Turcos, quando vários indivíduos de ascendência libanesa foram mortos.
Sobre a Revolução dos Turcos, Antônio Souza Costa escreveu o seguinte: “Passemos, agora, para a revolta dos turcos.No início deste século, houve no Distrito de Divino, que, hoje em dia, é Município, uma revolta dos turcos contra brasileiros. Eu ainda era bem menino quando se ouviu falar e comentar sobre essa revolta dos turcos, no Divino de Carangola.”[19]
Igualmente há registro de assassinatos dos “turcos” em Santo Antônio do Arrozal, o que é apontado como causa de declínio daquela comunidade. Dentre as famílias originárias de Damasco, atual capital da Síria, em Divino, tem-se a família Damasceno, da qual era membro o tabelião José Rodrigues Damasceno homenageado em nome de rua no Município de Orizânia e descedente o Juiz de Direito e Cientista Político João Batista Damasceno.

Influência libanesa na culinária do Vale do Carangola

Dentre as receitas culinárias decorrentes da presença libanesa no Vale do Carangola encontra-se uma iguaria chamada mucia. No Brasil, somente nesta região do Estado de Minas Gerais se produz e consome tal iguaria, tal como é feita. Trata-se de um embutido, tipo lingüiça, no qual o intestino grosso do porco é recheado com os miúdos do animal, cozidos, picados e temperados. A mucia, diferentemente da mussela ou do chourisso não contém sangue. Trata-se de de uma receita que expressa o dogna dos cristãos maronitas, que não ingerem sangue animal. Os cristãos marotinas vieram para o Brasil com o auxílio da Igreja Católica, fuginda da perseguição muçulmana do Império Turco Otomano.