Sobre Gídio, O Monstro do Quilombo, assim escreveu o Jornal Estado de Minas de 30 de dezembro de 1934:
“No lugarejo ´Quilombo´, na estrada que vai de Manhuaçu ao Divino do Carangola, o pequeno lavrador Egídio Fagundes, retornando a casa à tardinha, de uma das contínuas viagens erráticas aos arredores, deita-se e dorme., deixando preso, à estaca, arreado mascando freio, o animal, sem ao menos a ração rotineira, pois o assíduo freqüentador das bibocas não faltaria a um pagode naquela noite, habitualmente promovido por ´mutirões´, festejando o remate de barracos onde a clássica aguardente faz as honras de estilo do mesmo modo que transforma as batucadas em desfecho sangrento...”.[9] Ao acordar pergunta à sua mãe pelo cavalo e recebe a resposta de que o soltara, pois estava sedento e faminto. Egídio Fagundes, segundo edição do jornal Estado de Minas de 30 de Dezembro de 1934, sem pestanejar “calça as esporas de ferro, atirando brutalmente em posição de quadrúpede a mãe indefesa, cavalgando-a e a açoita impiedosamente num giro pelo terreiro, fazendo verter no pó o sangue sagrado daquele corpinho pálido, alquebrado pelos anos e pela subnutrição, mal coberto de uma chita desbotada, marcada de remendos, pés ao chão, cabelos desgrenhados, cortado pelas rosetas do mais desalmado de todos os peões da história.” [10] Passados oito dias Egídio Fagundes começou a transformar-se num monstro. Perdeu as forças musculares. Aquietou-se esquálido a um canto do esquálido casebre de chão, “fazendo-se irreconhecível antagonista da luz”. Cresceram-lhe as unhas como as de uma fera, os cabelos cresceram e pelos brotaram por todo corpo cobrindo-o de alto a baixo e da casinha à margem da estrada, na saída da Rua em direção a Santo Antônio do Arrozal, “apenas se ouvia um urro terrificante e prolongado”. Desta forma, o lavrador Egídio Fagundes transformou-se em Gídio, O homem-bicho ou O Monstro do Quilombo.[11]
Antônio de Souza Costa em suas memórias publicadas postumamente por sua filha, a professora e pesquisadora Neuza Machado, sob o título A história de Antônio narra o seguinte:
“Minha mãe contava um caso verídico, acontecido pouco abaixo do Arraial de Alto Carangola, quase no final doe século XIX. Nessa época, minha mãe tinha quase quinze anos, era ainda uma mocinha, quando ocorreu a notícia de um homem que tinha virado bicho no alto Carangola. Todos ficaram assombrados com aquela notícia, um homem virar bicho!?, não era possível nem acreditar em tal notícia. Mas, era preciso verificar se era verdade mesmo. Aí, reuniram-se, minha mãe com mais algumas colegas, e foram ver de perto se era verdade que um homem tinha virado bicho. Foram até ao tal lugar indicado e constataram a verdade. Elas chegaram e viram dentro de um quarto um homem cabeludo, deitado em uma cama de esteira, no chão. O homem estava com o corpo coberto de cabelo, com os dedos enrolados, com as unhas grandes e falava muito. Tinha muita gente que foi fazer visita, e todos de longe. Ninguém se atrevia a chegar perto do homem. Mas, nesse momento, chegou um amigo do homem que tinha virado bicho, por nome João Martins, e perguntou por Egídio, como ele estava passando. De lá do quarto, onde ele estava deitado, ele ouviu a voz do amigo e deu um grito: “- Chega para cá, João Martins. Eu preciso falar com você”. Esse fato,d esse homem que virou bicho no Alto Carangola, era comentado por várias pessoas que o conheceram, pois o lugar ficou assombrado por muitos anos. Eu conheci a casa de chão, pé direito baixo, de pau-a-pique e de estuque, coberta com telha. A casa ficava em uma curva da estrada, do lado esquerdo para quem sobe, quase chegando em Alto Carangola, que, ultimamente, passou a chamar-se Orizânia. Diziam que, se alguém passasse naquele lugar e dissesse: ´É aqui que o homem virou bicho!´, ele aparecia. Diziam, os mais antigos do lugar, que ele não morreu, desapareceu de uma noite para o dia. Ninguém viu a morte de Egídio Fagundes. Uma história triste e comovente de um moço que não chegou a ficar velho.[12]
“Contava-se que, em uma noite de sexta–feira da paixão, Egídio arreou uma mula para repassá-la, e sua mãe detestou aquela atitude, querer repassar um animal naquele dia, por ser sexta-feira santa. O moço respondeu que não tinha a ver uma coisa com a outra, e não quis atender ao pedido da mãe. Enquanto ele foi trocar de roupa, sua mãe soltou a mula e, quando ele voltou, e viu que a mula estava solta, ficou muito nervoso, e disse para própria mãe: ´- Agora vou-te montar!´, e montou mesmo, na própria mãe, que o havia gerado e criado, até àquele dia, com todo carinho. Não se sabe se a mãe rogou praga nele, só se sabe que, daquela hora em diante, ele amuou em cima da cama e não levantou mais, desaparecendo sem ninguém ver o seu fim.”